Mens sana in corpore sano, certo? Talvez o que eu mais tenha ouvido em todos os psiquiatras e psicólogos pelos quis passei foi: “Faça exercícios físicos. Isso ajuda. A liberação de endorfina faz bem ao cérebro, vai te ajudar a voltar a sentir bem estar.” Conselho extremamente válido.

Estando fora do peso, a autoestima fica lá embaixo, o que também não ajuda. Portanto, lá fui eu, tentar vencer as várias coisas que me impediam de me matricular em uma academia: Pessoas em excesso, música ruim alta, te forçando a colocar o fone de ouvido em volume insalubre, atraindo aquele pessoal o qual não pode ver um fone que corre para falar com você, ignorando completamente a mensagem “não fale comigo” passada pelo fone e pela minha costumeira cara de poucos amigos.

Nem sempre foi assim. Já frequentei a academia antes da doença e ia com prazer. Os resultados eram nítidos. Ia sorrindo, conversava com os professores, contava piadas, e por aí vai. Mas, o primeira efeito da depressão é tirar seu prazer em tudo que antes te fazia bem.

Larguei, engordei, tentei voltar, algumas vezes com sucesso parcial, outras falhando miseravelmente.

Numa destas idas e vindas, ainda com um nível de saúde mental melhor que o atual, mas já prejudicado, matriculei-me na unidade mais próxima da minha casa de uma grande e famosa rede de academia, a qual, à época, era uma das poucas já abertas no único horário o qual eu poderia dedicar à atividade física, seis horas da manhã.

Apesar da tranquilidade proporcionada pelo horário (pouca gente, mais atenção dos professores, sem aquele chato fiscalizador do tempo que você passa no aparelho e, ao invés de pedir para revezar, fica bufando e te olhando), também haviam seus incômodos.

Grande parte dos “atletas” neste horário pertencem à categoria sênior (ou, nas palavras do filósofo Alê Oliveira; categoria sub-óbito). Não me entenda mal. Os senhorzinhos e senhorinhas não atrapalham ninguém. Fazem seus exercícios numa boa, revezam os aparelhos, sempre muito gentis e educados. O problema começa quando, a partir de certa idade, inicia-se um certo desprendimento da parte deles, sendo um tanto quanto incômodo. Qualquer frequentador de academia sabe que os tiozinhos, quando no vestiário, não fazem qualquer questão de esconder “suas vergonhas”, e, completamente nus, caminham por ali, fazem a barba e conversam. Até aí, talvez seja só eu a me incomodar mas, o testemunhado por mim em um desses dias me traumatizou para sempre.

Depois de um treino particularmente intenso, tomei meu shake de whey protein (sim, eu era desses) e fui para o vestiário. Distraído, já pensando nas tarefas do dia, fiz uso do bebedouro e entrei na área dos armários, onde haviam banquinhos para sentar, apoiar a mala e etc. E fui obrigado a conter um grito de terror…

Um senhorzinho resolveu, inadvertidamente (ou não), mostrar sua elasticidade, apoiando um pé no banquinho e secando a outra perna, a apoiada no chão, num contorcionismo inacreditável para sua avançada idade. De bunda para a porta. Com o saco batendo quase nos joelhos. Jactando o próprio ânus.

Defrontado com uma situação impossível, deflagrando parcialmente um ataque de pânico, não tive dúvidas: Peguei minha mala, desviando o olhar daquele olho escuro que me perseguia tal qual a Monalisa, virei as costas e fui tomar meu banho em casa.