Ariane era uma menina linda. Aquela menina que quando entra na sala de aula, faz com que trigonometria importe menos ainda. No colégio era popular, sempre cercada de amigos, sempre o centro das atenções. Namorados? Nunca teve, mas jamais deixou de ter seus “contatinhos”. Suas notas não eram as mesmas do fundamental. A adaptação ao ensino médio não era das mais simples.

Em casa, antes alegre, apegada ao pai, sempre ajudando a mãe, começou a preferir ficar sozinha. Se isolava em seu quarto, assistindo algum seriado sem realmente prestar atenção, dormindo, pouco pegando em seus cadernos.

“Menina, você tá ficando preguiçosa, alienada, por isso suas notas estão despencando”, era o julgamento que recebia. Já não queria mais sair de casa. O cuidado com os cabelos foi ficando secundário, perdendo o brilho. O treino de vôlei foi abandonado, a carterinha de federada esquecida na gaveta.

Aos poucos o ritmo de mensagens no celular foi diminuindo. O telefone já não tocava. As festas não tinham importância.

“Sai de casa menina, vai tomar sol, vai fazer alguma coisa, deixa de ser preguiçosa, por isso ninguém mais fala com você!”, mais gritos, mais julgamentos.

A paciência não existia mais. A meiguice substituída pela agressividade. Gritava com o gato quando antes o amava incondicionalmente, sem se importar quantas vezes ela subia no laptop para chamar atenção. Gritava com o pai, com quem antes só sabia dizer palavras de carinho, quando este, de coração dolorido, sentindo falta de sua princesinha, perguntava se podia ajudar em alguma coisa. Gritava com a mãe quando esta lhe cobrava as tarefas domésticas e escolares.

Chorava escondida, no banho, disfarçando os olhos inchados. Aquela angústia não saia do peito, a dor era forte demais, não dava mais para aguentar.

Uma manhã, não saiu do banheiro quando a mãe bateu forte na porta, apressando-a, lembrando o horário da aula. Na terceira tentativa a mãe abriu a porta. E o mundo acabou…

Casos como esse acontecem demais. Meninos, meninas, homens e mulheres. A depressão se alastra.

“O número de pessoas sofrendo de depressão dobrou nos últimos 50 anos, deixando cientistas preocupados e se perguntando por quê. O curioso é que nossas vidas, nesse período, melhoraram drasticamente.” – escreveu uma jornalista, cuja identidade será protegida da própria ignorância. Melhorou pra quem? Em que sentido?

As pressões são cada vez maiores, a vida mais simples de 50 anos atrás não existe. As possibilidades são maiores? Claro, mas e o resto?

“Sai dessa”, “se anima”, “Tem muita gente com uma vida pior que a sua e não fica deprimido”, “Mas você tem depressão por quê?”, “Todo mundo tem problemas”, são frases que o depressivo ouve, e que só servem para que ele se sinta culpado pela situação, se sinta fraco, tornando pior aquela angústia característica, aquela pressão insuportável no peito.

“Conselhos de bom senso raramente ajudam e são contraproducentes quando o paciente não tem condições de segui-los. Frente a depressões graves, não adianta forçar o paciente a sair ou a fazer coisas. Como ele não consegue, esses conselhos acabam fazendo com que ele se sinta culpado por sua doença, ou não compreendido, o que aumenta seu desespero.” –  Explica o psicanalista Roosevelt Cassorla, professor da UNICAMP.

“Me liga”, “Se precisar de alguma coisa estou aqui”, “Vamos sair para conversar e tomar uma qualquer dia desses”. Esse tipo de ajuda passiva, por mais bem-intencionada, não adianta. Se você quer mesmo ajudar, a mão a ser estendida deve ser a sua. Lembre-se, o depressivo não tem força nem vontade, e sente-se sempre sem qualquer importância.

Quer ajudar de verdade? Incentive e marque junto com a pessoa uma consulta a um especialista. Vá com ela, pare e coma alguma coisa que ela gosta depois da consulta, sem JAMAIS perguntar sobre a sessão, apenas incentive o retorno. Não critique o remédio que ela foi receitada a tomar, aquilo pode ser a única barreira entre ela e o suicídio. Ouça muito, fale pouco. Fique apenas por perto, e não dê sermão. Essas são as atitudes mais eficazes, de acordo com um estudo da OMS, na divulgação do setembro amarelo.

A depressão é chamada de doença invisível. Invisível? O que torna a depressão invisível é a ignorância e a negação. Os depressivos são chamados de chatos, antissociais, preguiçosos, alienados, incapazes e outros adjetivos pouco elogiosos. “Mas você tem depressão por quê? Sua vida é ótima! Você tem saúde, sua família é linda!”. Os amigos e familiares menos próximos vão deixando a pessoa de lado, afinal “ela não quer se ajudar”.

Poucas doenças são tão visíveis quanto a depressão. A expressão neutra, os olhos sem vida, sem brilho, o incômodo em estar com outras pessoas, o desespero com locais cheios. A incapacidade de manter uma longa conversa, a perda total do prazer em coisas que antes amava. É só prestar um pouquinho de atenção.

Clinicamente falando, “É normal que todo mundo tenha emoções negativas, mas o cérebro consegue modular essas emoções negativas. Você pode estar triste, mas sabe que tem que ir trabalhar, tomar café, e vai”; explica Fabio Porto, neurologista do Hospital das clínicas de São Paulo – “O papel das regiões do cérebro responsáveis por emoções negativas é muito importante. Elas usam muito neurotransmissores, que são as substâncias usadas pelos neurônios para enviar informações a outras células. No cérebro do depressivo, estas regiões ficam hiperativas, então a pessoa não consegue desengajar o humor de aspectos negativos, aí vem a tristeza e a anedonia (perda da capacidade de sentir prazer). A produção de serotonina e a noradrelanina estão completamente desreguladas”.

Entendeu o porquê de não adiantar falar “se anima e sai de casa”? A pessoa simplesmente não consegue, ela é biologicamente incapaz de se animar e sair de casa,

Ariane é fictícia. A dor dela não. O jeito como a ignorância e a falta de empatia dos que a cercavam agravaram sua condição também não. O trágico desfecho, infelizmente, comum.  Preste atenção em quem você ama. A depressão só pode ser tratada, e quiçá, curada, se ela deixar de ser a mais visível das coisas invisíveis.