Uma das coisas que talvez mais tenha me ajudado a lidar com a depressão foi estudar sobre ela. Racionalizar o inimigo, dissociar as emoções, travar uma batalha absolutamente cerebral. Ela ataca minhas emoções, então, resolvi contra-atacar com o intelecto.

Às vezes dá certo.

Numa dessas pesquisas, deparei-me com alguns artigos falando sobre um estudo americano, no qual psicólogos de uma universidade americana (a internet me fez duvidar de tudo que envolva “cientista”, “estudo” e “universidade” na mesma frase, então dobro meus esforços na pesquisa pra garantir) defendem uma tese sobre a depressão ter função evolutiva.

Fiquei puto. Como assim? Como essa droga toda que eu vivo dia a dia pode ser uma ferramenta de evolução? Não ter vontade de fazer nada, de às vezes querer morrer, vai ajudar a evoluir como? Demorei quase um mês pra me acalmar e refletir.

Vamos aos fatos:

O artigo inicia citando uma definição de depressão dada pelo Instituto nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos: “Um período de duas semanas ou mais durante o qual há humor deprimido ou perda de interesse ou prazer, e pelo menos outros quatro sintomas que refletem uma mudança no funcionamento, tais como problemas de sono, apetite, energia, concentração e autoimagem”.

Duas semanas ou mais? Bota mais nisso! Seis anos aqui. Fora que estes sintomas nem começam a descrever um quadro depressivo corretamente.

E continua: “Há um aumenta na ruminação, a obsessão sobre a própria fonte da dor. Há um aumento em certos tipos de capacidade analítica. E há um aumento no sono REM, um tempo em que o cérebro consolida memórias”.

Eu devo estar com a depressão errada. Essa aí até que é boa. Sim, a ruminação (eita palavrinha) existe, mas aumento na capacidade analítica e aumento do sono REM não. Sinto justamente o contrário. Tudo parece simplesmente perdido e, sem ajuda de remédios, dormir já foi um martírio.

E, para concluir, nossos amigos psicólogos dizem que a “função da depressão seria nos afastar das atividades ordinárias da vida e nos obrigar a concentrar na compreensão ou na solução do problema” e, colocando a cereja de chuchu no bolo queimado, veladamente critica a prescrição de antidepressivos.

Eu consigo entender essa visão “positiva” da depressão, talvez, na melhor das boas intenções, tentando empoderar o doente. Mas claramente, esses senhores jamais a sentiram na pele.

Dizer que a depressão te afasta das atividades da vida para que você lide com o problema é de uma grosseria atroz. Resolver o quê quando não se consegue levantar da cama? Quando mal se consegue pensar? A Anedonia não é apenas física, é mental. Se o doente simplesmente se entrega aos efeitos da depressão, ele não vai “ruminar” a respeito do problema e solucioná-lo. Ele vai entrar em uma espiral tão escura e tão profunda que só um desfecho será possível. O suicídio.

Obviamente os pesquisadores não levaram a dor sentida, o pânico, o desespero de achar que tudo está errado e não existe solução. Os tão criticados remédios atuam como uma espécie de freio nisso tudo, dando um respiro para que, aí sim, através da análise e da psicoterapia buscar um pouco de força e sanidade para sair do problema e tentar livrar-se da doença.

É temeroso que se rotule a depressão desse jeito. Imagina no ambiente profissional? A pessoa que sofre ouvir um “calma que isso passa, vai trabalhando que daqui a pouco você resolve e melhora”. Todos os poucos avanços em tratar a depressão como uma doença séria e grave serão jogados no lixo.

A ignorância é o maior inimigo do depressivo, e quando disseminada por profissionais da área, torna-se ainda pior. Qualquer interpretação errada vai jogar o rótulo de “frescura” novamente em cima do doente. E tudo que o depressivo não precisa é ser julgado.