Já fui músico.

Nada sério, meu sustento nunca foi esse. Meu emprego corporativo tinha esse papel. Mas tive uma série de bandas.

Eu gostava de cantar e tocar. Me dedicava, fazia aulas, estudava. E, de repente, parei de gostar.

O prazer que eu sentia foi embora. Ficou tudo pesado, com cara de obrigação.

Mas eu ainda gostava de ir aos ensaios. Gostava principalmente de fazer shows. Sentia-me confortável no palco, mesmo sabendo das limitações de minhas habilidades. Encontrava meus amigos, dava risada. Por vezes comíamos algo antes e o papo divertia.

E, de repente parou de divertir.

Comecei a inventar desculpas. Até que achei motivos para justificar minha saída de todas as bandas e me “aposentar”, culpando todos estes pretextos.

E assim aconteceram com muitas coisas na minha vida. O exame da OAB, uma carreira no Ministério Público, minha empresa, desenho, exercícios físicos, etc, etc, etc.

Então descobri que o “de repente, parei de gostar” tem nome.

Chama-se anedonia.

E é o sintoma de depressão que foi mais cruel comigo.

Cientificamente falando, anedonia é a perda da capacidade de sentir qualquer tipo de prazer, por todo o tempo.

E eu acrescento: Todo. Mesmo. Inclusive esse que você está pensando.

“Parece haver tipos constitucionais com certos graus de anedonia. No sentido bioquímico, a anedonia está associada a baixos níveis de monoaminas (serotonina, dopamina, adrenalina e noradrenalina) no sistema nervoso.

Os pacientes com anedonia ficam normalmente numa situação de total indiferença consigo mesmos, não têm apego por nada, nem mesmo pela própria vida e costumam ser resistentes a mudar a sua situação, nada fazendo para isso, mesmo diante da insistência de pessoas próximas”. Fonte: www.abc.med.br

Entendeu por que aquele seu amigo depressivo (do qual você desistiu, afinal, se ele não quer se ajudar, o que eu vou fazer?) não consegue pedir ajuda?

Por que ele parou de sair com você? E às vezes mal te responde? Ou parou de fazer com você as coisas que antes parecia amar?

E isso ainda me incomoda demais, principalmente por não conseguir lutar contra.

Tenho vários projetos sendo desenvolvidos e morro de medo da anedonia atacar algum deles. Estes projetos significam meu futuro, significam finalmente trabalhar tendo prazer e alegria no que faço.

E eles estão constantemente ameaçados por um sintoma dessa doença que não me deixa em paz há anos e ataca justamente o prazer que busco.

Sigo meu tratamento, tendo fé que tudo vai ficar bem no final.

E meu amigo com depressão que lê estas linhas: Procure ajuda. Se para mim, que faço tratamento, tomo remédios, já é difícil, imagine os extremos em que isso pode chegar se você simplesmente não fizer nada?