Este texto vai ser um saco de escrever.

Já disse algumas vezes que luto contra a depressão há mais de sete anos. Tive meus momentos ruins, bons e péssimos. Já lutei, já desisti, já tentei de novo.

Uma das consequências de tudo isso foi aprender a identificar, quase imediatamente, outro depressivo. É como se a minha escuridão enxergasse a escuridão dos outros.

Se você já leu Dexter, é mais ou menos aquela coisa do “passageiro sombrio”.

Isso me permitiu ajudar algumas pessoas. Infelizmente, nem sempre fui bem sucedido.

A primeira vez que alguém próximo a mim se suicidou foi quando eu ainda não estava doente, ou ao menos não tinha consciência de estar. Um rapaz que trabalhava comigo. Não consegui fazer nada por ele. Enforcou-se na janela do próprio quarto.

Na segunda vez, eu ainda tentei ajudar, e desisti depois de algum tempo por estar fazendo mal a mim mesmo. Ela tomou uma overdose de remédios e eu sofri com a culpa.

Na terceira vez eu também tentei. Mas esse tentei mais. Todos acham que ele morreu de algum ataque apoplético, infarto, ou algo assim.

Mas eu sei a verdade, ele se matou aos poucos. Parou os tratamentos que fazia para pressão alta e outras coisas.

Ainda hoje o fantasma dele me assombra.

Porém, nada foi tão ruim quanto essa quarta e última vez. Antes eram colegas de trabalho. Dessa vez foi um amigo, um amigo querido.

Devido à pandemia, eu estava longe dele desde março. Ele não apresentava qualquer sintoma. Meu “passageiro sombrio” não encontrava um semelhante quando olhava pra ele.

Apenas após seu suicídio eu fiquei sabendo que ele caiu em depressão durante essa pandemia, por razões que não exporei aqui.

Um belo dia ele acordou, pagou suas últimas contas, pediu ao patrão que não depositasse seu décimo-terceiro, pegou seu carro de entregas e foi em direção à Anchieta. Parou no acostamento e pulou.

Duzentos metros de queda. Pulou em São Paulo, caiu em São Vicente.

E eu não pude fazer nada. Apenas recebi a ligação de um amigo, e de lá pra cá, não sei o que pensar. Não sei o que sentir.

Dessa vez foi próximo demais.

Era um cara que amava vida, que curtia estar com os amigos. Educado, bom de papo. Sempre alegre.

Eu não estava com ele durante a queda que o levou à queda.

Nem ao menos chorar consegui, tão anestesiado que estou pelos remédios que tomo.

Não há um dia em que eu não pense nele, assim como ainda penso nos outros.

Eu não devia carregar esse peso, não adianta e não ajuda em nada. Mas eu carrego, como exemplo do que pode acontecer comigo se eu baixar a guarda, se eu deixar minha escuridão tomar conta de mim.

Mantenham-se alertas, lutem.

E você meu amigo, encontre a paz a ti negada em vida.