Antes do meu diagnóstico de depressão, muito antes, e talvez já por conta dela, eu era um cara estressado.

Muito estressado.

Há quem diga que ainda sou, mas aí é coisa de quem prefere rotular todo mundo, colocar na prateleira e nunca mais mudar de opinião.

Prefiro acreditar já ter mudado para um pouco melhor.

Porque, perto dos meus arroubos de fúria passados, hoje sou o próprio Gandhi.

Sério.

Eu não consigo precisar exatamente quando começou, mas uma raiva começou a se acumular dentro de mim, um ódio tão intenso, que em determinado momento ele explodiu.

Comecei fantasiando, em momentos de stress, em quebrar tudo à minha volta.

E, em um dia de menor resistência, eu quebrei.

E quebrou-se também a resistência a este comportamento reprovável.

Depois disso, seguiram-se muitos anos e muitos prejuízos, para minha vergonha eterna.

Virei mesas, quebrei cadeiras, soquei vidros e paredes. Um comportamento irracional.

Neste momento, era como se meu cérebro desligasse e uma entidade se apossasse de mim, feita de puro ódio, raiva e frustração. Eu deixava as coisas me atingirem e a frustração se acumular. Nenhuma válvula de escape funcionava.

Eu só queria destruir, agredir e bater. Nunca cheguei a agredir outro ser humano nesse momento, mas era como se eu estivesse destroçando alguém.

Só de escrever isso tenho vontade de chorar de vergonha.

Foi quando ouvi pela primeira vez: “Você precisa vestir uma armadura e não deixar as coisas te atingirem diretamente. Precisa se blindar”.

Eu nunca consegui.

Às vezes observo pessoas em situações limítrofes de stress e frustração e consigo ver dentro da cabeça delas. Lá dentro, elas estão quebrando tudo, por fora, estão impassíveis.

Mas o monstro que mora em mim reconhece o monstro que habita em você. Meu passageiro sombrio reconhece o seu.

Se não houvesse consequências, a pessoa estaria arrebentando tudo que visse pela frente.

Eu nunca consegui me blindar.

Depois de anos de tratamento e terapia, ao invés de aguentar tudo com uma couraça, eu percebi que a única coisa a funcionar comigo é desviar. Não deixar me atingir.

Eu finjo que não é comigo. Eu criei uma outra persona.

E deixo esse cara se foder enquanto eu sigo.

Se é saudável, se tá certo, eu não sei. Mas tem funcionado. Não quebro, não grito, não passo mal.

Não passo vergonha.