Agora estou bem, amanhã já não sei.

Hoje eu gosto, daqui a pouco, não gosto mais.

Neste momento, te amo, depois, não vou conseguir expressar meus sentimentos.

Os mesmos instantes necessários para sorrir, levo para chorar.

Na mesma situação, posso ficar calmo ou entrar em desespero.

Com a mesma facilidade que produzo em um dia o que a maioria das pessoas produz em três, fico três dias sem conseguir sair da cama.

Duas pessoas diferentes habitam este corpo. Duas psiquês distintas. Uma eu gostaria de ser o tempo todo, a outra, gostaria de assassinar.

Não estranhe se eu estiver rindo com você em uma mesa de bar, fazendo piadas e sendo agradável, e sem qualquer justificativa, eu me calar, com o semblante de quem carrega uma dor infinita.

Não tenho controle sobre estas mudanças. Não sei onde está essa chavinha. Se eu a encontrasse, deixaria do lado bom e a faria emperrar.

Uma pena, quando ela emperra, é sempre do lado escuro.

Se nem eu sei quem vou ser no dia, como você pode esperar saber?

Isso é desesperador, causa ansiedade, paralisa, coloca toda a minha vida em compasso de espera, não me permite controlar meu próprio futuro.

Eu não sei como vai ser daqui a pouco.

Agora estou aqui escrevendo esse texto, sem nem ter certeza se vou conseguir terminar.

E se eu terminar, amanhã, antes de publicar, posso ter uma crise e jogá-lo fora.

Eu tinha certeza do que queria para minha vida. Hoje, nem sei se vou conseguir cumprir a pequena lista de tarefas na minha agenda.

E o tempo não para.

Pisquei e fiz quarenta anos.

Perdi quase dez anos enfrentando essa dualidade paralisante.

E não sei quantos mais ainda vou perder.

Não tenho certeza de nada.

Minha única certeza é não saber como vou estar daqui cinco minutos.

Como foi que isso tudo aconteceu? Como eu perdi o controle da minha vida, do meu futuro dos meus rumos?

Não sei, quem sabe a reposta não é o eu dominante agora.

Só me resta seguir, um pouco à deriva, um pouco sob controle, torcendo para que os momentos de deriva não façam com que eu me perca em um caminho sem volta.