Ah, o amor. O ritual de cortejo e aproximação sempre foram um mistério para mim. Quando digo aos outros que sou tímido, ninguém consegue acreditar. Mas também, se alguns ainda acha estranho eu estar depressivo, imagina ser tímido.

Por mais piadista e bagunceiro que eu fosse, ou tivesse uma hoje extinta facilidade para fazer amigos, as técnicas e desprendimento necessários para “dar uns beijos” me eram um mistério um tão grande quanto física quântica.

Hoje, casado e com família, nada disso mais importa, porém, ainda sigo encantando e curioso sobre os rituais de acasalamento do bicho humano. Fico observando a estranheza e os papéis assumidos por ambas as partes; os peitos estufam, a postura muda, os sorrisos são calculados, e a conversa, por Deus, a conversa.

Era justamente aí onde eu mais me embananava, mas as algumas pessoas têm tal criatividade e desapego com seus argumentos quando a necessidade de satisfazer a libido (ou ter um par romântico mais fixo) chega em certos limites, que geram diálogos hilários, ou desastrosos, dependendo do ponto de vista.

Em um sábado qualquer, fomos almoçar minha digníssima e eu. Ao nosso lado, já quando provávamos a sobremesa (nesse dia descobri que bacon é bom até doce), senta-se um casal. Ela loira, alta, bonita, com um jeito meigo de falar. Ele, o típico gatão de meia idade: Cabelos fartos e ainda pouco grisalhos, queixo largo, corpo bem cuidado e muito bem vestido. Falava em tons graves, tentando passar autoridade e confiança. Acompanhado dos filhos pequenos, provavelmente do casamento anterior. Pareciam estar naqueles primeiros meses apaixonados de namoro.

– Ah, você fala italiano?

Meus ouvidos acostumados a este idioma devido à minha criação no Principado da Moóca e pela ascendência italiana eriçaram-se. A voz meiga e apaixonada da moça carregava uma esperança romantizada.

– Sim, falo.

– Que lindo, e como se fala “muito” em italiano?

– Voglio.

Nesse momento, tive um micro derrame. Meus olhos se arregalaram. Minha esposa me olhou e uma súplica silenciosa pedia meu silêncio.

– Ai, então te amo voglio.

Não dava mais, pedi a conta. Ela veio rápido, atendendo as orações de minha esposa a seus babalorixás. Mas não teve como, não me contive. Já na porta do restaurante, quase saindo, disse em voz alta o suficiente.

– VOGLIO É QUERO! MUITO É MOLTO!

A moça olhou assustada. Não tive tempo de ver a reação do rapaz pois fui violentamente conduzido para fora do ambiente.

Às vezes, a total falta de medo das consequências causada pela depressão me diverte.