Não consigo me lembrar de em algum momento da vida ter sido um grande fã de surpresas. Pelo menos não mais do que qualquer pessoa normal, quando positiva. Acho que nunca tive uma festa surpresa (a única tentada, para meus 30 anos, acabei descobrindo duas semanas antes. Não contei que havia descoberto para não magoar minha mãe e esposa, mas tive tempo para me preparar) e talvez eu não tivesse gostado muito.

Surpresas negativas, como qualquer pessoa, detesto.

Mas se você quer realmente acabar comigo, mude algo de última hora.

Sou o típico planejador. Não gosto de deixar as coisas ao acaso. Planejo exatamente o que fazer em viagens, me antecipo para os compromissos, jamais me atraso. Qualquer data importante ou compromisso trivial é planejado com dias de antecedência.

Tudo isso é fruto de uma terrível insegurança. Um pavor de qualquer coisa fugir do controle ou sair irremediavelmente errado.

A última vez que mudaram meus planos em cima da hora, eu fiquei tão mal, mas tão mal, que não fiz nada na parte da manhã, e dormi a tarde toda, sem forças para sair da cama. E não voltei ao normal por alguns dias.

Lido muito mal com frustrações.

E tanto essa insegurança quanto essa “mania” de tentar antecipar e prever tudo são causas e também consequências potencializadas da minha depressão.

Isso sem falar na ansiedade, mas isso merece um texto à parte.

Não sei se cheguei a perder amigos por esta falta de espontaneidade, mas com certeza não agradei nenhum dos existentes. E com mais certeza ainda, devo ter magoado uns dois ou três ao retaliar com minha língua solta.

Já contei que minha língua é muito mais rápida que meu cérebro?

Enfim, mudanças me irritam. As de última hora me destroem psiquicamente.

O amor pela previsibilidade é uma ferramenta de defesa do depressivo. Quanto menos surpresas, menor a chance de frustração.

E sabemos os efeitos terríveis que a frustração tem em nossa psiquê fragilizada.

     Agora alguém me diz como é que fazemos para lidar com isso, em um mundo que frustrações são parte da vida?