Na casa de Robson, o Reveillon era esperado com ansiedade. Todo ano a tradição se repetia. Os tios e tias vinham de longe, ele buscava os avós paternos e seu irmão a avó materna, já viúva. Os primos menores enchiam a casa de gritos e correria. Os adolescentes tentavam ser adultos, mas logo estavam na bagunça com os menores. Ele era o mais velho dessa terceira geração, com 20 anos recém completos, mas se rendia aos insistentes apelos dos menores para brincar junto. Sem nenhuma resistência, deve-se acrescentar.

Não bebia, preferindo a rabanada à cerveja. Permitia-se uma taça de champagne que bebia disfarçando a cara feia no brinde da meia noite. Tinha paladar totalmente infantil, assim como se recusava a crescer completamente, evitando tornar-se um cara sisudo. Talvez por isso se desse tão bem com as crianças. A tristeza já causava dor e isolamento demais durante o ano. Pelo menos no tradicional encontro anual da família ele queria esquecer aquela dor.

Curva ao terceiro da faculdade de engenharia. Pesado. O estágio demandava demais. Não tinha vida social. Foi-se afastando dos amigos, das festas, sem perceber. A namorada, reclamando que mal o via, também foi embora. “Tudo bem” justificava-se. “Vou ser recompensado por esse sacrifício no futuro”.

Mas o sacrifício pesava demais. Tinha dias que não conseguia levantar da cama e matava o primeiro período. Chegou a perder alguns dias no estágio pelo mesmo motivo. “Olha Robson, você é um garoto capaz e muito inteligente” dizia seu supervisor. “Mas se você perder mais um dia sem justificativa, vai ser difícil segurar o RH. Tua efetivação já tá quase perdida, não joga o estágio no lixo, tá bom?”. Ele não faltou mais, mas chegava em casa e se jogava na cama, com um seriado qualquer, torcendo para conseguir ter forças no dia seguinte.

Ele estava se tratando, um amigo levou-o a um psiquiatra de confiança. Gostava do doutor. Era bom de papo. O remédio ajudava. Mas mesmo assim, alguns dias eram escuros demais.

Mas não hoje. Hoje estava com seus amados. Amanhã era um ano novo, uma nova chance, um recomeço. “Quem sabe?”, pensava ele. “Vou passar a me exercitar, tentar comer melhor, seguir um cronograma de estudos, reservar tempo para os amigos”. Um ano novo começava, e ele queria uma vida nova com ele.

Na casa de Cláudia, era um dia como outro qualquer. A mãe estava sentada no sofá assistindo sua novela. Na tela, uma moça descobria a traição do marido. “Tá vendo? Igual aquele cafajeste do seu pai”. O pai as abandonara a alguns anos para constituir uma nova família. Ela já nem lembrava mais por quê. Em alguns momentos sentia-se aliviada, pois a gritaria diária havia cessado. Em outros, achava que de alguma forma havia contribuído para a saída do pai. Ele não mantinha mais contato. Mandava um dinheirinho, um presentinho e só. Ela não conhecia os meios-irmãos, nem a nova esposa. Depois que se casaram, o pai parou de aparecer.

Com seus 22 anos, ela já trabalhava para se sustentar. Era secretária do CEO de uma grande empresa. Tinha futuro. Formou-se em administração, e agora pensava em um MBA orientada pelo chefe. Se pegava ao trabalho. Enfiar a cabeça no labor do dia a dia a impedia de pensar na mãe amargurada, que só reclamava e sugava sua atenção e energia. Ela estava emocionalmente esgotada. O corpo pedia atividade física, mas o cérebro não deixava. O coração pedia companhia, mas ela não podia deixar a mãe sozinha mais do que o horário de trabalho.

Mas hoje ela não queria saber. Esperou a mãe dormir, foi ao barzinho mais próximo disposta a beber tudo que aguentasse. Os fogos estouraram, e ela estava sozinha. E a dor só aumentava…

As festividades de final de ano são uma bomba emocional. É quase impossível não ser afetado de uma forma ou outra, sendo jogado para cima ou para baixo. A direção quase sempre vai depender de como você olha para o ano que passou e faz seu saldo.

Como será o balanço de uma pessoa cujo desequilíbrio hormonal a faz ficar presa aos momentos negativos e a uma eterna sensação de tristeza?

Demos uma pequena olhada em dois casos opostos. No período de festas, o depressivo envolve-se muito mais com as sensações ao redor. Ele pode sentir-se bem cercado pelos familiares, ou mal pela cobrança. Pode querer ficar sozinho, ou estar com os amigos. O importante é que ele seja compreendido, e que, sem pressão, esteja-se perto dele, apoiando da melhor maneira possível.