Sou um cara solitário.

Sempre fui, desde pequeno.

Raras foram as vezes em que busquei ativamente por companhia.

Quando era criança, isso era menos acentuado, mas eu já gostava de brincar sozinho. Montava batalhas imaginárias com meus bonecos, desenhava sozinho por horas a fio, lia meus gibis.

Na adolescência fui mais sociável, mas ainda pouco, comparado com outros da minha idade.

Tive minhas namoradas, e, por muitas vezes, estar apenas com elas me bastava.

Esse traço ficou muito mais evidente depois da depressão. Enquanto antes eu não buscava companhia, passei a evitar as pessoas. Comecei a pegar bode de barulho, aglomeração e gente falando. Queria ser deixado quieto no meu canto.

Isso quando não me largo no quarto, evitando até os que mais amo.

Por isso, fui atingido por essa consequência da pandemia com menos impacto.

Porém, o contato com os outros está começando a me fazer falta.

Estou trabalhando, mas não é a mesma coisa. Não são meus amigos.

Não são os caras com quem rio até perder o fôlego, ficando horas com o diafragma dolorido.

Assistir a um bom show também está me fazendo falta. Nos dois últimos anos antes do mundo acabar eu já estava em um estágio tão avançado da depressão que comecei a evitar estes eventos.

Isso vindo de um cara que viajou por quatro anos para a Suécia apenas para comparecer a um festival com mais de 30.000 pessoas.

Os poucos shows em que estive presente neste período da doença, fui ou arrastado ou depois de muita insistência.

E agora me pego sentindo falta. Precisando estar nestes eventos, compartilhando a catarse coletiva que apenas um grande espetáculo é capaz de proporcionar.

E isso é uma mudança tremenda.

Pode ser apenas pelo fato de ser proibido no momento, e quando tudo voltar ao normal eu volte a preferir ver as coisas pela TV.

Não tem como saber.

Mas, neste momento, eu, praticamente um abstêmio, gostaria de estar com um copo cheio de cerveja, cercado pelas minhas pessoas preferidas, e mais quantas milhares fossem as presentes, assistindo a uma das minhas bandas favoritas.

Quem diria?