Tenho lido e acompanhado as notícias sobre a erosão da saúde mental durante a quarentena. Como o isolamento tem afetado as pessoas de maneira perniciosa.

Me solidarizo e entendo. Imagino como deve ser para alguém de psique saudável, acostumado ao bom convívio social, ao ar livre e suas atividades rotineiras ser brutalmente privado de tudo isso, de forma repentina.

Também compreendo como a preocupação com o futuro, com o emprego, com a saúde dos amados pode gerar um stress extremo. E é nesse momento que a depressão pode surgir.

Sim, entendo e me solidarizo.

E me preocupo…

Me preocupo também comigo e com outros que já sofriam de depressão antes da quarentena mandatória.

A depressão pode atacar de diversas formas e em áreas diferentes, entre elas, gerando anedonia e tendência ao isolamento.

E é nessa tendência ao isolamento que reside o problema, não apenas comigo, mas para vários outros que já tinham essa tendência.

E por quê?

Porque essa quarentena está sendo ótima!

Minha psicóloga disse que estou no melhor estado emocional desde que ela começou a me tratar.

E isso me preocupa, muito.

Estou ativo, cumpro as funções no meu home office de forma rápida e diligente. O processo de escrever meu livro evolui de forma satisfatória. Fiz vários cursos. Li nove livros em 60 dias, totalizando 20 no ano.

Poucas vezes fui tão produtivo. Tenho minha esposa, filhos e meus três cachorros comigo. Estou feliz.

Não preciso lidar com pessoas e situações do dia a dia causadas por essas interações. Mantenho contato controlado, inclusive, com muitas das pessoas cujas atitudes no ambiente de trabalho colaboraram com minha derrocada emocional. Sem esse stress, minha mente começa a se recuperar e começo a realizar vários projetos que ficaram trancados na gaveta pois não sentia qualquer vontade ou prazer de executá-los. Lembram-se do conceito de anedonia?

Se não fosse o evidente impacto econômico desastroso e o risco de vida aos outros habitantes desse planeta, por mim, esse poderia ser o mundo para sempre.

E por que isso me preocupa?

Porque isso nada mais é do que uma outra faceta da minha doença.

Não, eu não estou bem.

Estar bem, feliz, produtivo, pelo fato de não poder conviver socialmente não é estar bem. É ter um sintoma da depressão abafado pela dominância de outro.

E estou preocupado porque tudo isso vai passar. E precisa passar! Pelo bem geral da nação, das pessoas, do planeta todo.

E eu não estou preparado para enfrentar o mundo lá fora.